22.5.16

o meu começo | vamos falar de fotografia?


Para além da componente sentimental, Marta põe na fotografia finalidade prática: ter sempre garantido que pode recordar o que viveu, especialmente a parte boa. As pessoas com quem se cruza e os sítios por onde deambula ficam assim eternizados, como se ficassem guardados num álbum que poderá abrir quando quiser: “o que mais inspira (mais do que luzes, pessoas, objectos, músicas e rotinas) é o medo de me esquecer, é isso que faz com que ande sempre com a máquina na mala. Este estúpido (e maravilhoso – na verdade) medo de esquecer”. Pormenores para mais tarde recordar, 2010

Achei pertinente começar esta série de publicações vamos falar de fotografia? com uma breve apresentação do meu percurso nesta área. Tenho que confessar que achei que esta seria uma publicação fácil de escrever porque já contei várias vezes e em vários momentos, mas ando com esta mensagem em rascunho há mais de uma semana... Vou começar por responder às questões que mais me fizeram ao longo dos últimos anos: quem te passou o bichinho da fotografia? quando começaste a fotografar? estudaste/estudas fotografia?

Mesmo já tendo contado esta história várias vezes houve sempre pormenores que deixei ficarem de lado. Mas hoje vou contar-vos porque acho mesmo engraçado como há coisas que fazem clique connosco. Eu não me lembro de ter nenhuma influência familiar, não me lembro de ver ninguém sempre a tirar fotografias e nem me lembro particularmente dos momentos em que alguém andava a fotografar (apesar de alguém na minha família gostar de fotografar porque eu e as minhas irmãs temos imensas fotografias de quando eramos pequeninas). Costumo dizer que comecei a fotografar com treze anos, mas verdade seja dita, até comecei um pouco antes. Lembro-me de ainda só andar no quinto ano e já pedir a câmara emprestada ao meu tio. Lembro-me, inclusive, de passar um fim-de-semana em casa da minha melhor amiga e de câmara na mão fartei-me de fotografar. A partir daí foi sempre a pedir pedir pedir uma câmara à minha mãe: sentia a necessidade de ter sempre a câmara comigo. De registar os momentos. Havia (e aceitem, vai sempre haver) momentos que não acontecem duas vezes e que não havia a oportunidade de guardar comigo. Aos meus treze anos ofereceram à minha mãe uma câmara fotográfica e eu claro, roubei-a maior parte tempo e passava o tempo todo a fotografar: queria fazer auto-retratos, queria fotografar as minhas amigas, queria fotografar a cidade e criar cenários e mundos imaginários.

2008
Aos quinze anos eu não queria ser fotógrafa, eu queria ser decoradora de interior. Aos quinze anos eu escolhi estudar Artes Visuais. Aos quinze anos recebi aquela câmara que me iria acompanhar por seis anos. Aos quinze anos morria nas aulas de desenho e geometria. Aos quinze (mais aos dezassete) tinha como disciplinas preferidas: oficina de multimédia & oficina de artes. Aos quinze anos eu usava a fotografia para exprimir tudo aquilo que queria. Aos quinze anos usava a fotografia em todos os trabalhos da escola. Aos quinze anos (e muito depois) fugia de tudo o que era a parte técnica de fotografia. 

Book Domination, uma animação em stop motion feita em grupo. | Uma fotografia sobre o silêncio, em grupo também | A minha parte da exposição sobre o racismo, área de projeto
Depois disso eu não estudei fotografia. Depois disso, na verdade, eu não estudei nada. Depois disso eu não tinha perspectivas quanto ao futuro. Depois disso eu comecei a trabalhar numa loja de fotografia, um acaso da vida. Depois disso comecei a fotografar em manual. Aprendi o que sabia por tentativa erro, mas o lado técnico ainda me assustava & aborrecia. Depois disso eu fotografei a minha primeira família. Depois fui estudar Artes Plásticas & Multimédia. Depois fotografei o meu primeiro concerto. Depois disso fui fazer o workshop da Mariana Sabido e juntei a técnica e os nomes correctos ao que tinha aprendido ao longo dos anos. Foi num desses momentos que percebi que fotografar era o que queria fazer para o resto da vida.

2009, analógico
Quanto à fotografia, acho que passa muito por querer documentar o meu dia-a-dia, as minhas experiências, as minhas vivências, o meu amor, os meus sítios, as minhas pessoas. Documentar – é mesmo a palavra certa – e guardar para além da memória, aquilo que sei que certamente irei gostar de recordar – além da fotografia, tenho aquilo a que chamo “caixinha de memórias” com uma dezena (é bem mais) de objectos que me trazem muitas memórias -, a minha fotografia são histórias que vou querer contar mais tarde aos meus filhos, quero que saibam como fui e que fui muito mais do que aquilo que eles vão ter oportunidade de conhecer. A minha fotografia é sentimentos que um dia vou querer colocar numa parede da minha casa e passa também, muito muito, por um medo de me esquecer e para assim garantir a possibilidade de uma dia, quando tiver mais de sessenta anos, me possa sentar na minha cadeira ao sol – acredito que vou sempre gostar do sol – e encher-me de boas recordações, de bons sorrisos, de boas histórias, e ter a certeza de vivi como vivi, que amei como amei. E sim, garantir, que nesse momento serei muito feliz. Isto é um estilo de fotografia? Entrevista no KTGWG, 2011
2016

2014


O que mais te inspira na tua vida e no teu dia-a-dia? É para ler sem pausas: as coisas boas, a minha família, o futuro, o medo de esquecer, os contos infantis, os álbuns de fotografia, as pessoas que conheço e as que já conheci, as memórias, as lojas pequenas, receber cartas, as histórias, Viseu, as palavras, o ter roupa nova, o mau tempo, receber presentes, as histórias, as luzes, as mensagens de bom dia do Pedro, as varandas, o escuro, padrões bonitos, as flores e os jardins, os bolos, as músicas, os pormenores, as perguntas, as surpresas, estudar, os aniversários, conhecer, as bolachas, os pés frios, os cobertores, o calor, as mãos quentes, os cachecóis, férias de verão, o meu lugar à mesa, o meu sofá preferido, mudar de casa, ferias de natal, ficar com dores nos dedos de tanto escrever, passear, tecidos, o bom tempo, os meus futuros filhos, conhecer sítios novos, ver vídeos bonitos, viajar, pensar, brincar, post-its na parede, dar presentes, os lenços, os cadernos, fazer coisas à mão, desenhar, a escola, os animais, os livros que já li e os que quero ler, o amor, o poupar dinheiro, a publicidade, outros artistas, o cinema, o teatro, o levantar cedo e o levantar tarde, a poesia, a minha rua, a minha liberdade, as coisas bonitas & claro, as coisas feias também. Entrevista no KTGWG, 2011
2015







E vou fazer estas publicações como sempre fiz tudo na vida, com muito amor, com muita dedicação, com muito de mim. Literalmente, muito de mim. Vou escrever, falar e mostrar-vos coisas que eu aprendi por mim, que alguém me ensinou, que li em algum lado. Tem a validade que tem, mas será do coração.

14 comentários

  1. olha, adorei, adorei, adorei ♡ relacionei-me em tantas coisas! também sou muito agarrada à fotografia devido ao meu medo de me esquecer os momentos, no futuro, e acho que é uma maneira tão bonita de guardar as memórias, tanto em fotografia, como em vídeo. tens um percurso tão interessante e inspirador :) tendo eu 18 anos, ainda não fiz muito, mas também tenho este bichinho da máquina fotográfica desde os 10 anos, secalhar, e gostava muito de ter um futuro relacionado com isso.
    este post foi uma bela introdução, estou ansiosa para o que aí vem!!
    felicidades e muito, muito sucesso xx

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    1. Oh muito obrigada Diana. Fico muito contente que tenhas gostado da publicação, estou ansiosa para trabalhar nas respostas e certamente que já fizeste muitas coisas bonitas e inspiradores, é saber olhar as coisas com bons olhos e há aqueles momentos que são momentos-chave mas só percebemos bem mais tarde.
      um beijinho e luta pelo o teu futuro **

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  2. ... e tudo o que escreveres vou receber também no coração! :)
    Sabes, por mais voltas que dês, há coisas das quais não consegues escapar. Nada acontece por acaso :) e tu és a prova viva. Adorei saber mais sobre ti!

    Beijinhos*

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    1. Lá isso é verdade Mariana. Parece que há coisas que nos estão meia destinadas!
      Ainda bem que assim foi, gosto desta parte da história e gosto de como as coisas se vão revelando mais ou menos importantes.

      um beijinho *

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  3. Corajosa 😊 gostei muito da ideia e da publicação. Acho sempre interessante quando se percebe quando as coisas nascem ou aparecem ou o que é. Eu,como sabes detesto fotografar, embora goste de fotografia mas percebo a ideia do documentar. Para mim isso funciona com a escrita embora seja mais demorada e mais fique por registar. É como se fosse o meio privilegiado para deixar cá fora parte de um mundo maravilhoso que fervilha dentro da nossa cabeça. Deixar que os outros vejam também o mundo como nós. Gostei 😊

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    1. Já te disse que a tua solução é usares um gravador e mais tarde registar as coisas :)

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  4. Adorei martinha e adorei o gif, está o amor <3

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  5. Caríssima Marta, não nada melhor do que colocarmos paixão naquilo que fazemos… para o fazer bem. Penso que era Henri Cartier-Bresson que dizia que “fotografar é colocar na mesma linha a cabeça, o olho e o coração”.

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    1. Oh e é um pensamento muito bonito e verdadeiro, não é mesmo?

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  6. Aguardo ansiosamente os teus ensinamentos :)
    Só podem ser boas dicas!

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  7. A tua técnica é fantástica e as ideias divinais! Adoro imenso as tuas fotografias, têm uma composição de regalar os olhos... Não sei se me explico como quero, mas sempre que olho uma fotografia tua, digo: é isto, está lá tudo!

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    1. Oh que palavras queridas Nês! Um muito obrigada e um beijinho *

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